Eu jurei não escrever. Não sobre ele. Fiz promessa. Pensei em abstrair. Tentei de tudo. Fugi de todas as lembranças que ele me remetia. Acendi uma vela pra São Jorge. Rezei o Pai Nosso de cada dia. Mas não consegui me manter longe. Distante. Não é do meu cunho. Não fujo. Nem rezo. Nem mesmo sou devota de São Jorge. Joguei todos os meus dogmas no lixo. Fiquei neutra. Não por muito. Mas fiquei. Não falava. Nem mesmo entrava em questão. Brinquei por uns tempos de faz de contas....Era uma vez...
Parte I
Um senhor alemão muito distinto, brando, às vezes até me parecia calmo. Mesmo assim, ele nunca me trouxe um sentimento bom. Nem a mim. E nem tão pouco em muitos. Fez-se um ídolo. Onde muitos nem sabiam do porquê. Andava com seu sapato preto básico. (PRADA). Envolto a uma túnica dourada. Reluzente. Tinha um andar lento, com as costas arqueadas, devido a cruz pesada, que trazia no peito. Era grisalho. Um senhor assim importante, não fosse a semelhança com o seu Zé, dono da padaria da esquina. Balbuciava algumas "traquinagens" e era aplaudido por multidões. Onde passava, carregava consigo um batalhão de "escravos" implorando por uma palavra com o intermediário, e um lugar no paraíso. Diziam-se bons, não cometiam nenhum dos 7 pecados*. Era tidos por muitos, como exemplo. Pediam-se conselhos ao caro senhor:
Carola1: "Seu João meu casamento não anda nada bem, meu marido me trata mal, me bate, eu já tenho seis filhos, e estou grávida do sétimo, moro em uma casa simples, não tenho mais como sustentá-los e nem como preveni-los. O que eu posso fazer?"
Seu Bento: Ah minha filha, converse com seu marido, pense que esses seis filhos e o sétimo e os outros que estão por vir são da vontade do Senhor. Não deve deixar a vontade de Deus. Não há o divorcio também. Sinto informar, mas a senhora vai apanhar ainda um bom bocado.
Parte II...
Na mesa do jantar falavam sobre sua vinda. Os presentes ao jantar, eram um misto de gerações e origens. Uns falavam bem, outros estavam indignados, outros tão pouco se importavam. A favor diziam que somos agora, sim. Abençoados. Os indignados falavam do dinheiro todo gasto, tanta gente passando fome e ele passa de papa móvel. Os que não se importavam ora faziam cara boa ora cara ruim. Falaram, os mais entusiastas, de como essa mesma instituição, a mais forte de todas, ajudavam as pessoas do mundo, quantas instituições, quantas famílias, quantos hospitais não eram, esses mesmos, ajudados pela igreja e por seus sucessores, que se abstém de ter a sua própria família, pelo bem comum e geral da nação. Quando o jantar acabou, ficou cada um com seu cada um e cada qual com seu cada qual, uns mudados, outros mais informados, outros desnaturados.
.......
Parte III
Em tempos de aquecimento global, o casamento da Carolina Dickeman, o Flamengo campeão, os saqueadores da vendinha do lado, as CPI´s da televisão, o presidente da França e o líder do Timor Leste. Os olhos do Mundo estão voltados todos para a terra da garoa. O deslocamento do mundo acontece bem aqui no Mosteiro São Bento. E não nas geleiras do Norte. Onde os "fãs", pois, considero todos ídolos do senhor alemão(?!), vão atrás de um olhar, um aceno, uma palavra que seja, do grande líder da massificação religiosa, do interventor, do senhor modelo da Prada, do pupilo da Itália, chegaram a esperar até 7 horas com apenas 10° C. Muitos deixaram suas casas, juntaram suas economias para o tão grande dia esperado. Foi feito todo um GPS da Região:
Você que pegava a Av. Tiradentes, terá que dá um pequeno contorno pela Marginal Tiête, você que pegava a Av. Braz Leme, terá que ir pela Av. Casa Verde.
Você também que costumava chegar em casa um horário, ou você participa da Missa ou você vai para o próximo boteco e por favor cometa os sete pecados capitais e mais uns outros tais.
Ali bem próximo ao Senhor Digníssimo de todos os tempos "O Hitler Bento" (eis tantas e tantas coisas em comum, mas esse fica para um próximo capítulo), uma senhora pede por abrigo, não queria nada, apenas um lugar para dormir, nem dinheiro, nem garrafa, nem um trago, queria apenas o que você, que provavelmente tem toda noite, queria uma cama para dormir. Foi pedir ajuda na igreja mais próxima à estação Santana do metrô, onde foi enxotada, chegou até mesmo a implorar, e implorou por um banco da igreja, nem isso deram ouvidos. Meu anjo foi ser intermediária, pediu, relutou, falou com poupa, implorou e nada feito.
Durante esse percurso uma senhora carola, perguntou-me:
Senhora Carola: Com quem você vai dormir?
Olhei com cara de quem não tinha à mínima idéia do que aquela senhorinha estava dizendo.
SC: É porque os jovens da igreja vão tocar amanhã para o Papa, e como eles moram longe , vamos dar abrigo para eles em casa, cada uma de nós (todas senhoras carolas que nunca pecaram) com um jovem casal.
Respirei fundo e disse que eu não fazia parte da comissão paroquial. Ela me olhou com desdém. Como se dali mesmo fosse eu para o inferno.
Pensei friamente..tentei ser neutra mais uma vez... quanto custou para o senhor da suástica vir ao Brasil? Quanto custaram suas roupas? O transporte do papa móvel? O local da missa? Quanto não faturou a empresa de eventos que cobriu a chegada do papa? Qual o transtorno não causou no trânsito e na vida daqueles que nada tem haver com isso? Quantas notícias não se tornaram tão irrelevantes para dar lugar ao papa no noticiário...?
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